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Cirurgia de Colostomia e reversão

Nos próximos dias, o Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, será submetido a uma nova cirurgia para reversão de sua colostomia. O assunto tem ganhado pauta, pois além de ser de interesse e de preocupação de muitas pessoas, despertou também a curiosidade sobre essa situação.

Com base nesse procedimento, o cirurgião oncológico e chefe do Serviço de Cirurgia Oncológica do Aparelho Digestivo do Hospital São Vicente em Curitiba, Dr. Marciano Anghinoni, com ampla experiência neste procedimento, comenta sobre as indicações das colostomias e sobre a cirurgia de reversão. “As colostomias são derivações fecais externas no abdômen, e podem ser de caráter temporário ou definitivo. As derivações fecais são chamadas de estomas e podem ser realizadas com o intestino grosso, nesse caso, as colostomias, ou com o intestino delgado, nesse caso, as ileostomias. Quando a colostomia é necessária, o intestino é exteriorizado para fora do abdômen e fixado com pontos na pele. As fezes passam então a ser coletadas através de bolsas adesivas plásticas externas. Apesar de existirem muitos mitos em torno dos estomas, a maioria das pessoas se adapta e alcança uma qualidade de vida satisfatória”, explica o cirurgião.

Em situações programadas, como a de tratamento de um câncer de intestino, as colostomias tem a finalidade de desviar temporariamente as fezes para fora da área da cirurgia. Em outras situações a colostomia pode ser definitiva, como nos casos de tumores que acometem a região do ânus e cujo tratamento contempla a remoção dessa região, o paciente passa a eliminar as fezes por uma colostomia permanente.

Nos casos de traumas, tanto por arma de fogo ou arma branca (facas) ou outros objetos, quando o intestino é perfurado, ocorre extravasamento de fezes na cavidade abdominal. Em situações de perfurações pequenas e atendimento rápido, com cirurgia realizada poucas horas após o trauma, uma sutura (costura) simples pode ser realizada e a colostomia pode ser evitada. Mas em situações de traumas mais graves, com lacerações do intestino ou lesões vasculares, a colostomia é a opção temporária mais segura e pode salvar a vida da pessoa por diminuir drasticamente as chances de infecção quando comparado à simples sutura e não realização do procedimento. E foi exatamente o que aconteceu com o Presidente Jair Bolsonaro, de acordo com os boletins oficiais.

A reversão da colostomia temporária requer uma nova cirurgia, geralmente menos arriscada que a primeira, mas algumas vezes complexa e associada também a riscos de complicações. A complexidade e riscos dependem do tipo e motivo da primeira cirurgia, ocasião em que a colostomia foi realizada. Geralmente, quanto maior o tempo entre a primeira e a cirurgia de reversão, menos complexo fica o procedimento, pois há menos inflamação nos tecidos.

Além disso, em caso de colostomias temporárias programadas, a cirurgia é realizada já no ambiente de planejamento da reversão, e quando possível, os dois segmentos, chamados de “bocas”, proximal e distal já são exteriorizados pelo mesmo orifício da pele e a reversão torna-se mais simples. Mas nos casos de traumas por ferimentos graves, muitas vezes, somente uma “boca”, a proximal, é exteriorizada, e para a cirurgia de reversão, há a necessidade de nova abertura de toda a cavidade abdominal, para que seja realizada uma anastomose, que é a emenda, ou ligação, da parte que estava exteriorizada com a parte que ficou dentro do abdômen, reconstruindo o trânsito intestinal normal.

“Nas duas situações há risco de complicações, especialmente quando a reversão requer a necessidade de abertura de todo abdômen. Nesses casos existem aderências, que é uma situação onde os intestinos ficam muito aderidos, e que são causadas pela inflamação decorrente do trauma, no caso de Jair Bolsonaro, das fezes que extravasaram no abdômen. A complicação pós-operatória mais temida é a fístula, que se caracteriza pela abertura dos pontos do local da anastomose (emenda), no período após a cirurgia, acarretando vazamento de fezes e podendo levar a infecções graves”, explica o Dr. Anghinoni.

Quando o procedimento é bem sucedido, o paciente volta a eliminar as fezes por via anal, já nos dias seguintes à cirurgia e o tempo de recuperação dependerá da complexidade dessa segunda cirurgia e de fatores, como a idade e condição clínica da pessoa.