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Outubro Rosa: A importância da mulher como um todo

*Por János Valery Gyuricza e Rafael Barreto Coelho

Neste mês muito discute-se sobre a saúde da mulher e o câncer de mama devido à campanha ‘Outubro Rosa’. Constantemente vemos ações de empresas, cartazes e outras intervenções para incentivar o diagnóstico precoce desta doença. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), são esperados cerca de 60 mil novos casos de câncer de mama em 2019. É indiscutível a importância de a mulher ter o cuidado com o seu corpo e buscar se prevenir de doenças ao longo da vida. Mas até que ponto a campanha Outubro Rosa é efetiva?

Conhecido mundialmente, o movimento surge nos Estados Unidos na década de 90 com o intuito de incentivar a população feminina a realizar exames para o diagnóstico precoce do câncer de mama. Diferente do Brasil, o país norte-americano não oferece um sistema de saúde público e gratuito e, portanto, é impossível não questionar sobre o real incentivo na campanha ‘Outubro Rosa’ e se não há o viés mercadológico, com foco em produzir capital para a indústria da saúde. Nos EUA não existem planos de saúde e sim seguros saúde. A medicina praticada é a curativa e não preventiva, via de regra. Isso quer dizer que o Seguro Saúde cobre pacientes diagnosticados com alguma doença. Então, se você foi ao médico com o intuito de fazer um simples check-up, prepare-se, pois a conta poderá ser alta.

O Brasil importou este modelo de prevenção do câncer de mama, sem possibilitar a real educação sobre o problema de saúde como informar as mulheres da possibilidade da mamografia detectar uma imagem que não colocará sua vida em risco, incentivar o cuidado primário e evitar a exposição excessiva à exames, pois os diagnósticos excessivos e fora da idade recomendada para rastreamento podem levar a procedimentos invasivos desnecessários como: biópsias, punções, mastectomia (retirada da mama parcial ou total), quimioterapia e radioterapia. A mulher pode até ter uma sensação de ter sido salva por um diagnóstico precoce, mas nem imagina que aquela imagem poderia não mudar o desfecho da sua vida, sendo apenas exposta a um tratamento exagerado. E isso acontece devido ao fato de que a tecnologia diagnóstica não é perfeita. Existem erros inerentes ao processo, que colocados em escala impactam negativamente a vida de muitas pessoas. De acordo com o Ministério da Saúde, as mulheres assintomáticas devem fazer a primeira mamografia aos 50 anos e, posteriormente, repetir o exame de dois em dois anos. Mas, quantos de nós não conhecemos uma mulher com menos de 50 anos que já não tenha realizado mamografias sem apresentar qualquer tipo de sintoma?

O discurso de medo em torno do câncer de mama ou de colo do útero gera sofrimento mental excessivo e procedimentos desnecessários. É importante que haja ações efetivas para uma reeducação sobre a saúde integral da mulher. O autoexame, por exemplo, também deve ser questionado sobre a sua eficácia, uma vez que este pode prejudicar o diagnóstico precoce. Ou seja, o crescimento do nódulo é gradual, ao ponto de a mulher não perceber as alterações e postergar a ida ao médico, adiando um diagnóstico precoce.

O fato é que muitas vezes as mulheres apresentam nódulos durante a adolescência e eles continuaram lá ao longo da vida, o que não necessariamente caracteriza câncer, por ser algo natural do corpo da mulher – que passa por diversas fases conforme vai amadurecendo. Na adolescência, a puberdade; na maturidade, a oscilação dos hormônios, e na menopausa, o climatério e a ausência de óvulos. Não podemos negar a relevância em falar sobre a prevenção do câncer de mama, afinal o diagnóstico precoce aumenta em 95% as chances de cura. Mas a mulher tem todas as complexidades de ser mulher na sociedade atual e a violência contra ela vem desde o momento do parto, passando pela sua adolescência até a vida adulta. Assim, a prevenção deve ser feita de maneira integrativa do corpo e do contexto social onde a mulher está inserida.

Segundo o Mapa de Violência 2015 – o último realizado – a taxa de feminicídio no Brasil é registrada como a 5ª maior do mundo, chegando ao número de 4,8 para cada 100 mil mulheres. Inúmeros fatores prejudicam a saúde deste ser humano como a violência sexual, doméstica e psicológica, dupla jornada de trabalho e até diferenças de salários em empresas, onde as mulheres chegam a receber até 33% menos do que os homens. Assim, é necessário ampliar a visibilidade da campanha para a mulher como um todo, considerando os aspectos físicos e sociais negligenciados pela nossa sociedade.

A reeducação sobre a saúde integral da mulher deve ser considerada como uma ação efetiva na prevenção do câncer de mama ou colo de útero. Devemos incentivar nossa população a adotar o cuidado primário ao longo da vida, como uma boa alimentação, exercícios físicos e consultas aos médicos e enfermeiros de família, pois são os profissionais com capacidade para tratar de forma integral a saúde do ser humano. Olhar apenas para um órgão não é cuidar da saúde, é buscar uma doença.