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Karol Estima Mundo Pet Últimas

Reforço Positivo não é só “Treinar com Petisco”

Um dos grandes mitos que rola por aí sobre o adestramento baseado no reforço positivo é esse do titulo. Reforço, por definição, é qualquer elemento que aumente a possibilidade de um comportamento acontecer. Uma recompensa. E a recompensa quem determina é o cão, e não o adestrador. Um exemplo simples: a minha cachorrinha Ana, em seu momento de banho de sol. Eu ofereço um petisco para ela, ela levanta o nariz, cheira o ar (afinal, ela está a menos de três metros de mim e, graças ao seu excelente olfato, ela não precisa se aproximar para saber o que tenho na mão), e deita a cabeça de novo, desfrutando de um momento em que eu sempre tenho inveja dela (eu, assim como ela AMO tomar sol….). Assim, ela me deixa claro que, neste exato momento, ficar no sol é mais importante para ela, ou seja, é mais recompensador, do que comer o petisco. E o bom treinador que estudou a fundo e utiliza o reforço positivo aprende a identificar quais são os principais reforçadores para aquele cão em específico, naquele dado momento, e a usufruir deste conhecimento para o bom desempenho do cão durante o treino. Ou seja, só por este exemplo a gente já entende que existem DIVERSOS tipos de recompensa, e que reforço positivo não é sinônimo de comida! A comida pode ser um reforçador para alguns cães, mas pode não ser para outros.

Outro exemplo: o Pingo, meu cachorro mais maluquete. Ele tem algumas questões de ansiedade quando vai para a rua, e não atende comando NENHUM – nem um simples senta – nem pelo melhor petisco do mundo! Acreditem, eu já testei filé mignon e salmão (imagem de uma mãe-adestradora tentando entender e treinar seu filho canino). O negócio do Pingo na rua é cheirar, cheirar e cheirar. Então eu comecei a pedir comandos para ele ANTES de oferecer a ele a oportunidade de ir até um local onde ele quer meter o nariz. Hoje, durante o passeio, quando ele quer ir até um lugar, ele se vira na direção desse local e se senta. Por que? Porque ele entendeu a dinâmica do treino: ele oferece um comportamento desejado, e recebe algo em troca. E eu entendi que usando uma recompensa ambiental (ou seja, ele cheirar algo no ambiente) eu finalmente conseguia achar algo que para ele valesse a pena me atender.

Outra coisa a se pensar é o “valor” da recompensa. Eu não trabalho aos domingos. É o dia que eu ME OBRIGO a descansar. Sim, porque quando a gente ama o que faz tem que se cuidar para não exagerar na dose do trabalho e depois acabar ficando estressada, doente…. Algumas pessoas me ligam dizendo que precisam muito de uma Consulta Comportamental, que não podem esperar até o dia que tenho disponível na agenda (que as vezes chega a ter espera de três semanas) e me perguntam se eu não atendo aos domingos. Já caí nessa cilada algumas vezes e já cheguei a passar um mês inteiro sem ter um dia sequer sem atendimento. Hoje, eu até atendo aos domingos. MAS, eu cobro o dobro do valor normal do atendimento. Justamente porque eu preciso desse dia só pra mim, é mais recompensador para a minha saúde tirar esse dia descansando, do que fazer um atendimento. E com isso eu descobri que as emergências (que estavam me deixando doente) não eram tão emergências assim, a pessoa podia esperar ou até reorganizava a agenda dela para se adequar aos horários que eu tinha livres durante a semana. Entendem o que quero dizer com o valor da recompensa? O mesmo acontece com cães, especialmente quando eles estão aprendendo algum comportamento muito complexo ou mais difícil para eles de executar. Ele não vai treinar em troca da ração que ele recebe todo dia mas, se eu escolher um petisco mais saboroso (um pedaço de peito de frango por exemplo), ele já se vê motivado a realizar o exercício. Estamos falando então de uma recompensa mais valiosa dentro da mesma categoria, alimentar.

treinamento de cães Karol EstimaÚltimo exemplo: o Bali, meu Border Collie, e esse é um exemplo que acontece com bastante frequência com os cães de trabalho: eles são MUITO mais motivados por brinquedos do que por comida! Veja se a maioria das pessoas que treina seus cães no Agility não usam brinquedo ao invés de comida….

Consegui explicar um pouquinho do porque o “treinar com petisco” é beeeeeem diferente do adestramento baseado no reforço positivo? Esta técnica, como qualquer outra disciplina que se aplica à vida real, precisa ser estudada, a fundo, compreender seu embasamento para então saber como utilizá-la na prática. Porque quem acredita que é só “treinar com petisco”, no dia em que se depara com uma situação dos exemplos acima, vai sair dizendo que “reforço positivo não funciona com qualquer cachorro” ou que “o cão fica viciado em petisco” ou “só obedece quando estamos com petisco na mão”…… Daí o jeito é trocar de treinador e não de técnica!

Karol Estima adestradora

 

Karol Estima, Relações Públicas, Bióloga e proprietária do Estima Adestramento.

No Portal Believe News, Karol assina coluna com textos a respeito do Mundo Pet.

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