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Só com transformação digital o campo pode produzir o necessário

Paulo Asano

Poucas áreas da economia passaram e passam por um processo de transformação tão profundo na área digital como o agronegócio. Desde o início desta década, o setor recebe anualmente as mais diversas inovações tecnológicas, facilitadas pela melhor infraestrutura de comunicações e IoT (Internet das Coisas, na sigla em inglês).

Em 2014, a consultoria McKinsey já apontava que até 2050 o agronegócio teria de ser responsável por prover alimentação para uma população mundial de aproximadamente 9,7 bilhões de pessoas, segundo projeções da ONU, e apresentaria, nos próximos 30 anos, um incremento de produção equivalente à produção humana nos últimos dez mil anos. Estudo da consultoria PwC estima que, para alimentar essa população com três refeições por dia, será necessário um aumento da produtividade agrícola para providenciar um incremento da ordem de 30 bilhões de refeições.

Os desafios continuam imensos para o setor em todo o mundo, passando por políticas públicas de fomento, linhas de crédito, redução da qualidade das fontes aquíferas, aquecimento global, entre outras ameaças. Cerca de 20% da superfície terrestre é adequada ao cultivo de alimentos e vem sendo intensamente degradada por monoculturas e uso intensivo do solo. No Brasil, agricultores e pecuaristas também precisam dar conta de todas as regras ambientais, que podem reduzir consideravelmente a área plantada.

Neste cenário, qual a saída? Ela passa por um intenso uso da tecnologia e uma maior especialização dos profissionais nas necessidades relacionadas ao assunto. Nos últimos cinco anos, o Brasil viu surgir dezenas de agrotechs, startups ligadas às mais diversas facetas do agronegócio, desde o uso de drones para análise de solo e cobertura plantada até o aprimoramento genético de insetos para combate a pragas.

Atualmente, grandes empresas e produtores/criadores utilizam sistemas informatizados de monitoramento da área plantada ou do plantel criado. Por meio de imagens de satélite, é possível verificar se determinado espaço do talhão sofre com alguma praga ou deficiência do solo (a diferença na coloração ou na temperatura do solo fornecem a informação necessária) e as correções, como mais adubo ou a aplicação de pesticidas, pode ser feito de maneira mais precisa por drone, com menor desperdício de insumos.

Hoje, o Brasil é um dos países com maior potencial de crescimento tanto no agronegócio em si, quanto no desenvolvimento da tecnologia para isso. Dos 451 milhões de hectares disponíveis, 66 milhões deles atualmente são ocupados para criação e plantações, de acordo com a consultoria Mckinsey. Diversas empresas têm trabalhado no desenvolvimento de sistemas baseados em blockchain para rastrear produtos, desde o plantio ou nascimento de um bezerro, até sua chegada à gôndola do mercado. Dessa forma, o consumidor tem uma garantia de que aquele produto, por exemplo, não foi produzido em área desmatada, aumentando o prestígio da marca e do produtor.

E com a chegada do 5G, a comunicação entre os inúmeros aparelhos por IoT tende a melhorar, produzindo impactos ainda maiores na relação financeira entre as partes. Por exemplo, um banco pode acompanhar todo o processo de produção de uma safra, do plantio à colheita, com informações confiáveis e, analisando toda a situação, pode determinar uma melhor taxa de juros para o fazendeiro por conta de boas práticas de gerenciamento de sua fazenda. Melhor para o produtor e para o banco, que tem menos risco de sofrer um revés com a perda de uma safra.

Mas todo esse cenário só será possível com o uso intensivo da tecnologia e das melhores ferramentas para cada etapa do processo, desde o plantio até a gôndola do supermercado, passando pela colheita e transporte do produto. O conhecimento dos sistemas atuais, sua integração total a outros sitemas legados, sem perda de tempo ou paralisação de atividades (imagine um produtor perder um ou dois dias de colheita), tudo isso deve ser feito com rapidez e segurança. A revolução digital já está na porteira das fazendas há algum tempo, mas nem de longe começou a mostrar todo o potencial que tem. Ainda há muito trabalho a ser feito. Só estamos no começo do plantio.

*Paulo Asano é CEO da Populos, empresa especializada em serviços de TI